Um espetáculo está pronto quando os atores sabem o texto sem erros, descobrem as inflexões corretas, movem-se em cena sem deixar “buracos” e tudo acontece na mais perfeita harmonia. Certo? Errado. Como pude acreditar nisso? Ontem encontrei uma excelente resposta, melhor que essa, tão simplista. A explicação de outro ator abriu meus olhos para compreender melhor, inclusive, o processo de O Mão de Vaca.
Foi no programa “Quarta Parede”, exibido no canal Brasil, em rede fechada. Era um documentário sobre o processo de montagem de um espetáculo teatral, desde a preparação, até as apresentações. Mostraram todo o processo e os comentários dos atores. Um deles (era global, mas não lembro o nome...que gafe a minha!) disse o seguinte: “Um espetáculo não está pronto na estréia. A gente estréia quando está estético, mas não está pronto. A cada apresentação ele vai mudando, aí é que vai se construindo. Na verdade, ele vai estar sempre em construção”.
Bingo! Embora não lembre seu nome (sou péssima com nomes), não vou esquecer seu comentário. De fato, achar que um espetáculo está pronto é desprezar os olhares dos outros, a relação com os espaços, o trabalho do ator, o fino faro do diretor. Esse movimento, essa troca caracteriza todo o fazer artístico. Se o espetáculo for duro, engessado, terminado, deixa de ter sentido. Por que não lançar-lhe um novo olhar a cada dia?
Espetáculos não terminam, eles estão no meio, sempre múltiplos (ando lendo Deleuze...). E isto não é diferente com O Mão de Vaca. Exigir que esteja acabado é simplesmente impossível. No último sábado tivemos um ensaio bastante produtivo, muitos acertos, novas marcações, movimentos. Estamos no meio, nos preparando para estrear. Somente para estrear. E estamos quase lá. A mudança na música da personagem Mariana, que agora será cantada por ela e por Frosina, a alcoviteira (Frosina me lembra muito uma amiga palhaça...rsrsrs), ficou lindíssima. Os outros palhaços fazem o coro, o que gosto muito.
Minha ansiedade diminui quando me dou conta das palavras do ator. Esperava estar com tudo terminado, mas, ainda bem, isto nunca vai acontecer. Para o palhaço, então, atento aos estímulos do ambiente, ao jogo com o público, ao acaso da sincera improvisação, cada dia é um dia e suas ações sempre passíveis de mudança. Que venha a estréia! Pode vir quente, que estamos fervendo...

