Circulamos pelo espaço urbano.
Consumimos seus produtos, fitamos os olhares que cruzam os nossos,
obedecemos suas leis, nos preocupamos com a violência que o invade.
Os sentidos cotidianos da rua nos atravessam, sem que nos demos
conta deles. O uso do espaço urbano faz parte de um sistema tão
amplo, quanto controverso, servindo, muitas vezes, a uma ordem de
autoridade e alienação para a qual pouco olhamos ou não percebemos.
No entanto, inevitavelmente somos afetados por ela.
Escrevo estas coisas como alerta, ao
final de uma maravilhosa temporada de O Mão de Vaca, em plena rua,
no picadeiro da Praça da República. Bela praça, em Belém do Pará.
Guarda tanta história, marcas dos tempos áureos da borracha, da
imponente figura do Teatro da Paz, das grandes óperas, do monumento
à República, bem no centro. Lá encontramos também o abrigo de
mazelas sociais, cidadãos que não consomem e, portanto, passam
invisíveis ao sistema. Hoje a praça não reúne mais senhoritas com
vestidos importados da França. Há famílias, estudantes, transeuntes
e muitas, muitas pessoas em situação de vulnerabilidade
social.
Imagino que alguns no meio da
multidão que nos assistia na praça jamais havia vislumbrado um
espetáculo teatral, nem imagina entrar no Teatro da Paz algum dia.
O acesso a cultura é, ainda, um problema. E os artistas de rua
são um entrave à ordem estabelecida no espaço urbano. Sem mais nem
menos, subvertem a ordem, mudam a paisagem de todo dia e fazem arte
no cenário da cidade, que parece, mas não é imutável.
Penso que isto assusta e incomoda.
Talvez este seja o problema, a motivação velada que alguns órgãos
públicos sustentam ao proibir espetáculos teatrais em espaços
públicos, como parece acontecer em Belém. O órgão municipal
responsável por emitir autorização para que nosso Mão de Vaca fosse
encenado na Praça da República não só negou o documento, como
apresentou a preocupante justificativa de que há planos para NÃO
MAIS PERMITIR QUALQUER APRESENTAÇÃO DE TEATRO NO LOCAL.
Conscientes do absurdo que isto
representa e dispostos a realizar atos de cultura acessíveis a
todos, os Palhaços Trovadores seguiram sua temporada, sujeitos aos
desmandos de nossas autoridades, que, ainda bem, mantiveram-se em
seu pedestal. Nos reunimos no último sábado, ocasião da última
apresentação no local, pouco antes do espetáculo começar, e
contamos à praça lotada sobre o que acontecia. A indignação do
público nos encheu de energia e o último dia de espetáculo foi
inesquecível, cheio de energia, que emanava de nós e das pessoas
ali, compartilhando o prazer do estado de arte.
Nos orgulhamos do trabalho concluído.
Mais ainda, temos consciência de que intervenções artísticas no
espaço urbano são instrumentos de ressignificação do espaço,
desestabilizando a lógica do seu uso. Resistimos e junto conosco
uma praça lotada, que deliciava-se com o ridículo em
exposição do palhaço e se indignava com a tentativa de sustentar o
imaginário da praça como espaço de exclusão. Fica o alerta
e a lembrança de dias inesquecíveis.